terça-feira, 29 de junho de 2010

Minha terra seca

Acorda com o canto do galo e o sol ainda despontando. O lavrador pega sua enxada e vai para a luta diária com a terra seca e as obrigações como chefe de família. Não há muito que se fazer por ali, o tempo de prosperidade esgotara-se e necessidade de dinheiro crescia à medida que a esperança se ia.

As crianças brincam tristes com carrinhos malfeitos de madeira. A mulher escora-se, na janela, com o terço na mão pedindo por um milagre qualquer. O lavrador briga com Deus, com a terra, com a enxada e com a planta que mal brotara e já estava para morrer. Percebeu que se continuasse ali, tornar-se-ia aquela planta: Seca, sem cor, desfalecida, sem vida alguma.
Junta suas poucas coisas, pega a mulher e as crianças e cai na estrada. O pouco dinheiro que tinha era o suficiente apenas para chegar à cidade. Seus olhos brilharam ao ver tanta beleza; As crianças sorriam; A mulher agarrava-se a imagem de Nossa Senhora. Saem para o desconhecido.
Em casa, no barraco de alumínio que arranjara, as crianças brincam na rua em meio aos tiroteios; A mulher escora-se na janela com o terço e a Nossa Senhora, pedindo ao menos a sobrevivência; O lavrador, engolido pela cidade, murmura seco, desfalecido e sem vida alguma: - Minha terra seca pelo menos era minha!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Ela lua

Ela estava lá com toda a sua altivez. Era única, cheia de si, ofuscava o brilho das estrelas, iluminava a areia, dava brilho ao mar. Mostrava-se, despia-se, exuberava a sua beleza e o seu poder. Era impossivel desviar os olhos, sua cor seduzia nossas retinas, em qualquer lugar da cidade era possivel admirá-la. É de se entender porque comparam as mulheres à lua, ambas necessitam de uma atenção demasiada.

sábado, 19 de junho de 2010

Uma civilização perdida

- É evolutivo
- As mulheres desde o tempo das cavernas tiveram essa característica. Tinham que fazer comida, cuidar da casa, cuidar dos filhos
- Poisé, conseguimos fazer tudo ao mesmo tempo e bem feito!
- Aí já não sei. Viu no que deu a humanidade hoje? Não diria que homens foram muito bem educados.
- Ah as mães, de um modo geral, educam muito bem os filhos o problema é que quando crescem, eles usam essa educação da maneira qe lhes convem ou não usam...
- Nem sempre. Há indícios de que há uma parte da civilização perdida aí que tá usando a educação e vão lapidando ela.
- Bom, então isso é a prova de que nem tudo está perdido e que essa parte da civilização pode ensinar muito aqueles que não sabem como usa a educação.
- Mas considerando que a minoria nunca consegue se fazer ouvir pela grande massa, esse grupo de indivíduos nada mais resta do que se juntar, cada qual fazer sua parte e levar uma vida paralela na sociedade. tentando, mesmo que de forma infrutífera, fazer o bem ao outrem e ser útil a sociedade de alguma maneira
- Mas esse grupo precisa, de uma certa forma, aparecer para a sociedade. Quem sabe assim a minoria não passa a ser maioria e assim possa ser ouvida
- Eles aparecem, mas uma das coisas que o fazem ser o que são, é a discrição, não querem ser notados, fazem as coisas pelo simples prazer de fazer bem à sociedade de uma forma geral, e o fazem, mesmo sendo pouco, eles o fazem.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Quase

Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga,
quem quase passou ainda estuda,
quem quase morreu está vivo,
quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto.
A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.
De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma.
Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
Sarah Westphal

sábado, 5 de junho de 2010

Sobre amor e libélulas








sobre amor e libélulas

Um dia desses estava escorado na janela de um hotel qualquer quando uma libélula pousou a poucos centímetros do meu braço. Na hora, eu não sabia ao certo se aquilo era uma libélula, ou uma cigarra, ou um inseto gigante qualquer. Nunca soube, e os poucos segundos que perdi tentando classificar o bicho foram suficientes para que ele sumisse. Bateu asas e escafedeu-se entre as árvores.
Eu tenho uma ligação especial com libélulas. Foi correndo atrás de uma que eu me estabaquei no chão, fraturando uma costela, perfurando o baço e sofrendo uma hemorragia interna que por pouco não me matou. Tinha cinco anos e, desde então, convivo com uma cicatriz que me atravessa o abdome, lado a lado. Tudo que eu queria era vê-la de perto, justamente para me certificar se o bicho em questão era cigarra, libélula ou “seja-lá-o-que-fosse”.
Se a necessidade de classificar uma libélula me rendeu duas semanas de internação, imagino o que me aconteceria se eu ficasse tentando classificar meus sentimentos. Inclusive, me cansa ver por todo lado gente tentando diferenciar um sentimento do outro. Se é amor, amizade, namoro, rolo, beijo, ficada, passatempo... Não tenho a mínima idéia, e nem quero ter! São inúmeras as espécies de relacionamento e a tentativa de classificar a todo minuto algo que, ás vezes, é simplesmente inclassificável pode resultar em muito mais do que um baço perfurado.
Ás vezes, perdemos a noção de que cada minuto da nossa vida pode ser o derradeiro, de que cada ligação telefônica pode ser a última, bem como aquela pessoa, de quem você ainda não sabe se gosta, pode ser o seu último romance.


Lucas Silveira